OFERTA QUENTE

            Oferta Quente é uma afirmação da concepção de galeria como loja de arte.

            Diante das condições de afastamento social impostas pela pandemia, a vitrine do espaço expositivo frontal da galeria ganhou um novo valor em potencial ao mesmo tempo em que a arte contemporânea se afoga em questionamentos densos a respeito de sua relevância e coerência.

            O cenário artístico sempre navegou em vias turbulentas de provocações; de reflexões que por vezes caem sobre si mesmas - sobre a própria arte, sua relevância e sobre o valor monetário de sua subjetividade.

            Atualmente, em cena ampla, dispersa, nuançada e carente, todos os envolvidos, sejam pessoas influentes ou invisíveis, plásticas ou performáticas, repensam seu desempenho criativo e mercadológico. Despertam um novo olhar frente à hipocrisia que turva o imaginário popular sob insistente promessa de status.

            Nomes influentes do meio seguem ditando limites e conduzindo o público por um caminho de imodéstia ou indifereça sob desculpas - ou melhor, conceitos sedutores e manipuladores. Prometem calma ao espírito, subversões engravatadas, e grandes investimentos em pequenos farsantes maquiados de estrelas. Prometem união e empatia através da cultura. O despudor instaurado pelo discurso capitalizado debruça um peso forçoso aos joelhos do público desavisado, e enverga a beleza que o meio oferece.

            São genuínos os momentos em que a emoção ou transcendência vêm à tona perante um trabalho. No entanto, tal ocasião - de potência esotérica e tom épico - parece facilmente se transmutar em motivos convincentes de arrogância pela boca do mercado. Disto gera-se um discurso que trai a si mesmo quando em devoção ao dinheiro e ao posicionamento social, por trás de um véu de cinismo e desinteresse que não é exclusivo da atualidade.

            Antes tarde do que nunca, desbrava-se, mesmo que a passos lentos, o campo minado da virtualidade digital, promissora da união entre corpos distantes: um labirinto sem paredes. Restringidos pelas ordens de segurança, os espaços expositivos batalham para se adequar ao oportuno não-espaço internético, de corporalidade mínima. Reduzem alguns limites expositivos, pra abrangir outros. Neste território, se faz permitido o acesso a preços de obras das maiores galerias de São Paulo e do mundo, sem demasiada cerimônia ou discrição. Em letras mínimas, lá estão flutuando os cifrões seguidos de algarismos na nuvem comum. Mesmo embora sejam destinados ao mesmo público de sempre: os clientes leais.

            O vidro é matéria de condições gloriosas. Afasta em rigidez, e aproxima em visualidade; possibilita interações impermeáveis, e subversões quebradiças e modernas. É janela de segurança ilusória e convidativa. Aproxima sem deixar respingar, e abriga sem privacidade. É um amigo da pandemia. A vitrine da galeria entra em perspectiva para funcionar como intermediário entre a gélida tela dos dispositivos (fieis escudeiros pandêmicos), e o calor da presença corporal, transeunte das calçadas citadinas.

            Em Oferta Quente, a galeria Verve tem como objetivo escancarar algumas das atuais condições que afetam o cenário de galerias. Tais como a necessidade urgente de vender; a escassez de possíveis motivos acanhados para persuadir alguém a comprar algo que não tem funções práticas; a instabilidade emocional, que se aflora na estética gritante e apelativa dos supermercados; a transgressão do caos em humor; e ainda, a admissão de que, afinal, uma galeria não é uma instituição museológica, mas um estabelecimento para comercialização e fluxo de trabalhos de arte, que sim, cumpre com responsabilidades sócio-culturais, mas que depende diretamente do capital privado para existir.

            Foram selecionadas obras de valores acessíveis para jovens colecionadores, desenvolvidas por jovens artistas, que se ajustam à crise entre incertezas e proezas satisfatórias manifestadas pelo compromisso com o refletir e comunicar através de suas produções.

Eduarda Freire

Outubro 2020